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Paradoxo

“(…)De fato, um novo amor, sendo amor mesmo, é o que funciona para quem quer partir para outra. O probleminha está nesse ’sendo amor mesmo’, já que raramente é. Às vezes, a gente sabe desde o início que o tal novo amor é apenas um passatempo, um elixir contra a solidão. Se você for do tipo que não olha pra trás, que leva tudo numa boa, que tem como esporte preferido fazer a fila andar (seja com quem for), boa sorte, está salvo. Mas se isso for apenas uma fachada e no fundo você for hipersensível, esse novo amor pode ter um efeito contrário: confirmar a força do amor anterior.

Até parece fácil. Um amor se vai e a gente grita da janela: próximo! Só que esse próximo vai te beijar de uma maneira diferente, vai ter um papo diferente, vai ter hábitos diferentes. Animador? Sei não. Isso tudo pode apenas te entorpecer em vez de te curar. Se a relação que terminou tiver sido muito forte e séria, essa troca de bastão instantânea pode gerar uma saudade absurda daquele que se foi. Vale a pena correr o risco?

Tudo é risco na vida, mas, nesses momentos, prefiro ficar na minha. Claro que não coloco um cinto de castidade e me fecho para o mundo – se por um acaso surgir alguém que me desperte a imaginação e os hormônios, quem sabe? Mas não procuro nada. Não ligo o radar. Não saio pra noite. Não fico na fissura por uma substituição imediata. Aproveito a entressafra para matar saudade de mim mesma, já que em toda relação a gente esquece um pouco de si, se doa, contemporiza, regateia, em alguns casos até inventa um personagem. Sozinha, eu não preciso fazer concessões nem imposições – não é preciso negociar. Vou perder uma oportunidade rara dessas?

Norman Mailer certa vez escreveu: “As pessoas procuram o amor como solução para todos os seus problemas, quando na verdade o amor é a recompensa por você ter resolvido os seus problemas.’  É isso aí. Primeiro aprenda a administrar seus conflitos e tristezas, aceite suas oscilações de humor, busque a serenidade, fortaleça sua auto-estima e ampare-se em si próprio, sem se valer de bengalas emocionais. Aí sim, feito o dever de casa, seu prêmio estará a caminho.”
Martha Medeiros

***

A recordação do que você foi está me deixando. Sei que não é um bom modo de se iniciar um texto, mas é isso. Tentei pensar nas suas NÃO-virtudes pra facilitar o processo. E ajuda, creia-me. Mas ajuda mais NÃO-pensar nas virtudes. Isso de ter você aqui, tão intensamente, tava me levando pra um caminho que eu não quero ir. É difícil esquecer as suas pronúncias tão diferentes, o vocabulário novo pra mim, e é difícil apagar essa delicadeza que tinha cada um dos seus sorrisos. Acho que essa é a parte mais difícil: essa sua delicadeza em tudo. Mas isso de preencher espaço só funciona quando o espaço tá vazio. Assim, cheio de dor, não cabe mais nada. Eu juro que consigo, porque eu sou persistente. Forte eu não sou, mas sou persistente. E um dia não vou mais ter você aqui, tão entranhado nas minhas vísceras e alastrado na minha pele, nos meus pensamentos notívagos e nas minhas vontades matutinas. Um dia passa.

Sei que talvez você nunca me leia, talvez nunca me entenda de verdade e talvez nunca me perdoe por tudo que eu não pude ser. Mas um dia, eu vou me perdoar.

Nunca fui boa resumindo fatos, textos… imagine SENTIMENTOS.
Mas o que sinto é, basicamente…:

“…nem sei se gosto mais de mim ou de você…”

Explícita agressão ao amor-próprio.

Têm esses lapsos de memória, esse branco que me dá, durante os filmes, no meio dos livros e revistas, no expediente, durante o sono que deveria vir, e ainda mais tarde, porque não veio.

Têm as conversas de 30 segundos onde só ouço 10. Perco tão cinematograficamente a introdução e a conclusão do papo, e, cinematograficamene de novo, me ouço perguntar: ‘desculpa, não ouvi, o quê?’

Têm essas lágrimas depois do desodorante (é, desodorante), depois de lembrar que aquela fragrância que há tempos não uso, é a mesma do teu perfume. Do que eu sentia no seu pescoço, nas suas roupas, no seu quarto, quando estava aí; no meu quarto, quando estavas aqui.

Tem também essa falta de informação a teu respeito, que ainda não descobri se me faz mais bem ou mal.

Têm essas músicas nessas vozes específicas, essas temperaturas climáticas, esses sabores gastronômicos, essas ideologias, aquele futuro previamente planejado em detalhes, o vazio sentimental que é alguns mundos maior que o vazio físico.

Têm todas essas muitas vezes em que a incompetência me vence e não consigo evitar pensar em nós.

E tem esse amor que eu sinto por você, que não quer passar…

Aula de Português

Aprendendo o plural no passado

E presentes do indicativo no singular.

E pela pureza do que (eu) sentia
Era assim que queria,
Que (tu) não ficasses mais sozinha
Que houvesse companhia
Não sabia eu, entretanto,
O quanto doería.

Bruce C.

E os encontros eram constantes. Beatriz, aquela que sempre evitava mercados, lojas, livrarias ou qualquer lugar onde pudesse haver contato humano não planejado, passou a frequentar horas do rush à espera e à procura. E vez ou outra, lá estava, com os mesmos passos desafiadores, despropositalmente a lhe tirar o fôlego. E esbarrava no olhar. Tropeçava no perfume. Andava no escuro. Vendada pelo desconhecido. Que está havendo passou a ser a pergunta sem resposta. E as coincidências viraram hábito e um dia o papo surgiu. E o medo de contos sumiu. O que parecia anos luz de distância tornou-se constante. E o admirado ao longe corria risco de tornar-se corriqueiro e sem graça. O mistério passado, perde-se o encanto, correto? Errado. As palavras melódicas eram agora completas orquestras sinfônicas com nexo e um encantamento correspondido. Desde aquele primeiro encontro previamente marcado num dos apartamentos, quando o ar parecia rarefeito e as paredes feitas de algo não muito sólido. A palavra para descrever não surgia, quando juntos, no meio de algo desimportante disseram: sublime. E encontraram a descrição perfeita. E os olhares não eram feitos de baixo pra cima, mas de dentro pra fora. A janela antes fechada trazia agora a luz de um sol que aquecia na temperatura perfeita e as gotas da chuva de verão eram mornas e agradáveis quando alcançavam a pele e logo depois faziam pequenas poças no quintal florido. E refletiam além dos sorrisos, sempre. Porque o além era diário. Tudo alcançava o inatingível ainda que não o buscasse.
E havia as despedidas, quando se levava o sol, a chuva, as flores, as poças e o sentido de tudo. E havia o regresso, nunca mais que dois dias depois da despedida, quando o paraíso voltava, trazendo cestas com flores campestres de perfume delicado e as mãos suaves que as colheram. O caminho de volta pra casa era completo, sempre. E as risadas que davam quando juntos recordavam o vexame das horas antes do jornal. E a confissão de que perguntar as horas fora mesmo um pretexto barato e cliché, mas que dera certo. E a revistinha ainda em branco, na mesinha de cabeceira, sete meses depois. A salvação foi mesmo, enfim, a companhia.

EPÍLOGO

E aquela Beatriz sem brilho, descrente em contos, desacreditada no amor, agora tinha novas cores. Não tinha ainda toda a fé do mundo no futuro – que em secreto era mais uma de suas descrenças, – mas sorria em todas as manhãs, até quando nevava ou geava. Porque as auroras, crepúsculos e toda manifestação da natureza agora lhe pareciam justas e mais bonitas. E pareciam compactuar com seu estado de espírito em permanente júbilo. E se no fim ia ser como nos contos, não lhe importava agora. Porque agora, só agradecia por estar, naquele dia, usando relógio.

Beatriz não permitia muitas visitas a seu mundo, feito de frutas agridoces e nuvens esbranquiçadas em manhãs frias, e muita, muita neblina. Eis que aquela visita ao jornaleiro no domingo chuvoso depois do chá da manhã foi o golpe certeiro pr’um destino resolvido nos dados. Aquele par de olhos castanhos com cílios grandes procuravam algo que não era ela. E ela buscava o que não sabia se encontraria, talvez até tivesse desistido de buscar. Talvez. E decidiu não arriscar. Escolheu o jornal adicionou duas moedas e pediu uma revista de cruzadinhas. Aquilo salvaria o dia. Domingos são tédio. E durante os 2 minutos ali, permaneceu num silêncio imposto por ela mesma. E o mesmo foi rompido quando uma voz – ainda mais doce do que se lembrava Bia – perguntou: as horas, pode me informar? Como colegial, tremeu as mãos e as pernas dessa vez, quase não identificando os números no relógio analógico. Nove e doze, respondeu. O agradecimento veio com um sorriso de bônus. Quase pediu uma cadeira ao jornaleiro, tamanho foi o medo de desfalecer. Cruzadinhas que nada? Aquele sorriso foi a salvação.
E durante toda a semana, durante o trabalho, e durante o almoço, e de volta ao trabalho, e na ida pra casa. Não que se perdesse nos pensamentos, mas lá no meio de tudo sempre estava ela, a imagem desconhecida das horas. E no jantar a imagem daquela companhia. Não por falta de opção, mas porque Pedro não a fazia estremecer quando sorria. E Alberto nunca folheou uma revista com tanto charme. As palavras que Luiz pronunciava não vinham com notas musicais nem em versos. Houveram muitos convites, e com eles, de acompanhamento, as negativas. E porque era cheia de métodos e contravenções, superstições, não entendia a afeição que surgia quando visualizava mentalmente aqueles passos indo em qualquer direção.

(…)

Tudo começou pelo fim. Naquele fim de ano que mudou o conceito carregado de certezas, coisas e pessoas previsíveis para Beatriz. No meio de tanta gente, aqueles olhares de superfície, de gente que pouco se importa com o que se passa de verdade. Aqueles passos confusos, as palavras sussurradas e mentirosas, o frio, o descaso, o vazio. Os tic tacs dos relógios, que ela odiava. Odiava relógios! Medir o tempo em segundos, minuto, horas, lhe parecia um desperdício. Tinha até um, mas usá-lo lhe exigia acordar com um bom humor não muito comum. E no meio de tudo isso ela encontrou aquele paraíso. Um paraíso assustador, como os paraísos nunca deveriam ser. Um firmamento insistentemente estrelado mesmo após a tempestade que caíra aquela tarde. Em meio ao som ensurdecedor da multidão ali reunida, Beatriz conseguia ouvir perfeitamente aquela voz que interrompia o ruído e fazia silenciar o tumulto. Mas ela não acreditava que fosse amor. Não assim, a primeira vista. Coisa de contos, e contos são sempre ficção. Que seria aquilo então? Aquele rosto suave, mãos que se moviam em slow motion, aquela sutileza no olhar, as palavras ordenadas como em prosa, nas conversas mais banais… Dava um calafrio só de admirar. Mas limitou-se a admirar, porque imagine se seria amor, nem tinham falado diretamente. E porque raios TINHA que ser amor? Que grande bobagem. E a noite foi agradável somente por causa disso. Multidões nunca agradavam Beatriz. Sentia-se sufocada. Mas construiu uma redoma de onde mirava e admirava aqueles lábios a pronunciar palavras dóceis e lógicas. Toda a noite. Respondia aos cumprimentos com monossílabos, concentrada naquela figura. Sabe-se lá com quem tinha algum parentesco. Mas estava lá, e fez o barulho ter sentido, porque Beatriz já não ouvia nada além do que saía daqueles lábios – ainda que não fosse pra ela. E a noite enfim acabou. Foi pra casa, e antes do banho, jogou-se no sofá, a pensar estarrecida no que lhe havia acontecido. Aquele interesse súbito não podia ter sentido. Mas ela sabia o que tinha sentido, porque sentiu os tremores nas mãos. Sabia que era exigente, metódica, chata mesmo, daí a não-compreensão do que se passava. Imaginou, como qualquer mortal, mil hipóteses, dez mil finais, cem mil princípios. E chegou ao nada. Não sabia nem mesmo como descobrir de onde provinha aquele ser, que a fez parar no tempo naquela noite, fez os relógios perderem mesmo sua lógica.
Tomou seu banho, enfim, e cansada de pensar, adormeceu. E o destino, que às vezes prega peças, tratou de cuidar do resto.

Reticências

Naquela noite todas as suas palavras me tiravam do sério. A sua voz me irritava. Sua expressão irônica e seus sorrisos sarcásticos eram um soco no estômago. Eu não via mais poesia no seu olhar, não acreditava mais em contos de fadas; não depois de você. Me desfiz dos bilhetes e cartões com sua assinatura. Gritei de todas as janelas que não quero mais seu cheiro entranhado assim nas minhas roupas, nas minhas coisas, em todos os meus cômodos, seus gostos e desgostos escandalosamente invadindo meu espaço. Não quero pensar nos telefonemas que você não deu quando eu precisava desesperada da sua voz. Que dissesse o preço do biscoito que mais gosto ou uma poesia do Vinícius, tanto fazia. Queria te ouvir, Precisava te ouvir. Mas você não ligava… Odeio lembrar das noites geladas quando nunca usei casacos, quando seu corpo me abrigava, me aquecia. Essa noite tudo voltou. E voltou por pura vingança sei lá de quem. Voltou porque por alguns instantes esqueci dos seus impasses, e me afoguei nas suas virtudes. Recordei os minutos em que te ouvia lendo trechos dos meus poemas preferidos, sem pressa, fazendo interpretações românticas e sussurrando as palavras que eu sempre dizia soarem bem quando era você quem dizia. Como tínhamos o mesmo tom quando você terminava as frases que eu cantarolava. A forma desastrada com a qual você cozinhava, e a forma competente com a qual você me fazia suspirar. Aqueles seus abraços apertados e sufocantes e as brincadeiras que me deixavam de mal humor quando estava na tpm. Todas aquelas vezes em que bati a porta e te pedi pra ir embora pra sempre depois de cada briga. E você ia embora pra sempre, e voltava 15 minutos depois por entre as cortinas, com o seu melhor sorriso e o pedido de desculpas, ainda que estivesse certo. Você me acostumou mal, porque eu sempre soube que esteve mais certo que errado, mas adorava suas desculpas e o melhor som sempre era o ruído da porta quando você voltava, contrariando meu pedido inútil e não significativo para que fosses embora. E agora, se foi. Não porque pedi que fosse, mas porque não pedi que ficasse. E o meu maior medo é te amar mais agora do que quando devia. E te odiar menos do que acho que mereces, por ter me feito tão feliz…

Se você for pêgo dirigindo acompanhado de uma criança menor de 10 anos no banco da frente, é multado (super corretamente!)

No entanto, crianças com passaporte de gratuidade e pessoas com idade acima de 65 anos, são OBRIGATORIAMENTE trasportadas na parte dianteira do ônibus.



VAI ENTENDER!

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