Tudo é risco na vida, mas, nesses momentos, prefiro ficar na minha. Claro que não coloco um cinto de castidade e me fecho para o mundo – se por um acaso surgir alguém que me desperte a imaginação e os hormônios, quem sabe? Mas não procuro nada. Não ligo o radar. Não saio pra noite. Não fico na fissura por uma substituição imediata. Aproveito a entressafra para matar saudade de mim mesma, já que em toda relação a gente esquece um pouco de si, se doa, contemporiza, regateia, em alguns casos até inventa um personagem. Sozinha, eu não preciso fazer concessões nem imposições – não é preciso negociar. Vou perder uma oportunidade rara dessas?
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A recordação do que você foi está me deixando. Sei que não é um bom modo de se iniciar um texto, mas é isso. Tentei pensar nas suas NÃO-virtudes pra facilitar o processo. E ajuda, creia-me. Mas ajuda mais NÃO-pensar nas virtudes. Isso de ter você aqui, tão intensamente, tava me levando pra um caminho que eu não quero ir. É difícil esquecer as suas pronúncias tão diferentes, o vocabulário novo pra mim, e é difícil apagar essa delicadeza que tinha cada um dos seus sorrisos. Acho que essa é a parte mais difícil: essa sua delicadeza em tudo. Mas isso de preencher espaço só funciona quando o espaço tá vazio. Assim, cheio de dor, não cabe mais nada. Eu juro que consigo, porque eu sou persistente. Forte eu não sou, mas sou persistente. E um dia não vou mais ter você aqui, tão entranhado nas minhas vísceras e alastrado na minha pele, nos meus pensamentos notívagos e nas minhas vontades matutinas. Um dia passa.
Sei que talvez você nunca me leia, talvez nunca me entenda de verdade e talvez nunca me perdoe por tudo que eu não pude ser. Mas um dia, eu vou me perdoar.