Ouvimos com freqüência pessoas falando de rótulos. Todo mundo rejeita, todo mundo abomina, todo mundo desaprova (é, mas todo mundo é hipócrita). Pior que rótulos são comparações. Não há modo de se comparar alguém e ser completamente fiel na comparação. Há formas de rotulação fiéis, ainda que seja pejorativo e não indicado, mas há. Mas comparar é inadmissível. Pelo menos pra pessoas é. A gente compara copo, blusa, caligrafia. Mas pessoas? É um negócio muitíssimo complexo se analisar determinada característica e por ali dizer se alguém é melhor ou pior que um outro alguém. Teria que ser algo bastante elaborado pra se conseguir medir com exatidão se aquela virtude compensa ou não aquele defeito. Pessoas vão além do básico, do superficial, do óbvio. Pessoas são um poço sem fim de sentimentalidades, excessos e ausências. Difícil saber o modo mais justo de dizer quem vale mais ou menos. Sim, porque esse é o papel da comparação; dizer se você é mais mais que alguém. E aí mora o perigo. Se você é o tal mais mais, vira centro das atenções e pra quem gosta, é o paraíso, mas quando vier a tona o seu lixo no sótão, é pena de morte na certa. Comparações machucam durante e criam expectativas depois. E ver alguém criar expectativas baseadas em algo que você não é, que não sente, que não quer sentir, mas que outra pessoa ostenta, é dose.
…
‘Olha, antes de o ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe? Dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? (…) Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e “desamar” era não mais conseguir ver, entende?
Caio Fernando Abreu. (Obrigada, Kinha, por apresentar-me ao moço)
“sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas…”,
PQP! Eu bem sei disso aí que ele diz.
Projetar ou imaginar é normal, mas nada pode ser tão grave, quando a gente vê a realidade e ela não é tão diferente daquilo que a gente ESCOLHE enxergar. O problema tá quando a gente imagina coisas COMPLETAMENTE diferentes, ou até finge não notar aquele olhar de quem diz sentir, mas nada sente.
É como dizem, a gente enxerga a realidade e se aquilo nos for suficiente, a gente continua amando, mas se não for, a gente aprende a passar pela dor e ser feliz de novo.
Não sei se me expressei bem, but..
Te amo, Xuz.
Lindo texto!
Vivemos em uma sociedade em que o TER importa mais que o SER. As pessoas não só, vivem fazendo comparações, como também, vivem competindo o tempo todo.
Mas ainda existem pessoas legais e que não estão tão contaminadas por essa sociedade doente na qual fazemos parte.
Bjs.
Olá!
Primeiro, grata por linkar meu blog no seu! Depois, Parabéns pelos textos e blog.
Eu uso uma balança especial, em aceitar também os defeitos das pessoas. Mas para os arrogantes, eu preciso de uma dosagem extra de paciência.
E o que espero dos outros, é que deixem eu ser eu mesma. É chato quando se tem que se policiar o tempo todo para evitar discussões. Até porque sou meio desligada
Beijo grande,
Ontem estava batendo um papo com uma pessoa fabulosa, tentando formar pensamentos como os que vc discutiu aqui. Cheguei à conclusão que ando em círculos, ela me disse: “ainda bem que não são retas, lineares, estreitas e sem retorno”. Um passo à frente, descobrimos que não são círculos, mas espirais, visto que revemos o mesmo assunto, mas sob óticas diferentes, pq mudamos a cada passo, a cada escolha.
Ufa, enfim consegui chegar no ponto. Mudamos a cada passo, a cada escolha. Isto posto, como rotular algo que é fugidío? Você pode até classificar alguém, mas assim que for bater o carimbo, ou colar o selo já não é mais a mesma pessoa.
A experiência humana é de infindáveis recursos. Me entristece perceber que os grilhões da sociedade amarram tanto almas que estão em expansão e que não podem ser limitadas a não ser com o alto custo da degradação da própria espécie.
Ui, falei bonito \o/
Bjusssss, criança grande muito querida